Em maio de 2013, para ser mais exato, no dia 30 deste mês, eu estava de ressaca e cheio de ferimentos pelo corpo. Na noite anterior, no dia 29 de maio, eu tinha bebido muito durante uma recaída, e por causa disso, estava vulnerável mais uma vez.

Eu já tentava me recuperar do alcoolismo fazia tempo, contudo, naquela noite do dia 29, fui roubado e espancado, pela ‘enésima vez’, e por pouco, não acabei assassinado e jogado no Rio Bauru, na cidade que leva o mesmo nome.

Seis anos depois, completo hoje mais uma vez, meu aniversário de sobriedade – o sexto seguido.

Nunca fiquei tanto tempo assim sem álcool, desde minha infância. É algo novo, sempre que chega a data.

Em minha última recaída, bebi porque minha esposa tinha saído de casa, pela milionésima vez, por causa de meu comportamento, sempre irritado, intolerante e algumas vezes, agressivo, até com ela.

Apesar de já ter perdido tudo na época, trabalho, família, dinheiro, várias vezes, eu ainda não conseguia me controlar. Precisava de um milagre para conseguir parar de beber, e ele finalmente acabou acontecendo. Na última vez que consegui escapar da morte, tive mais uma chance, e aproveitei. Me recuperei dos ferimentos, fiz minhas reparações com quem eu tinha ofendido, e voltei a ter contato com a sala do grupo de apoio para alcoolistas como eu, e enfim, mais uma vez, dei a volta por cima. Mas a questão era: por quanto tempo isso vai durar? Uma semana, duas … será que dessa vez, vai durar um mês, dois …?

Sofro de uma doença que não tem cura, o alcoolismo. Uma doença que atinge aproximadamente 10% de nossa população, e que está em nossa vontade. O alcoolismo, assim como acontece com a dependência química, só pode ser combatido ou estimulado, por nossa própria vontade, nossa capacidade de querer. E por isso, é extremamente difícil de tratar, afinal, falamos aqui, de conseguir controlar nossos desejos, algo que é complicado para todo mundo. Sozinho, ninguém é capaz de vencer, é fato. Faz-se necessário algo mais. A saber, um grupo de apoio, Deus e remédios (na maior parte dos casos, incluindo o meu).

Sabia que precisava mais de Deus, só que já não acreditava mais em seus porta-vozes, seus representantes religiosos aqui na Terra. Mas foi graças a um poder superior a mim, sim, que minha vontade foi tratada e recuperada daquela condição. Graças a um Deus que não precisa de Igreja, nem de sacerdote para se manifestar. Ouvimos nas salas dos grupos de apoio, que esse Poder Superior pode ser o que a gente quiser. Um Deus já conhecido (cristão, budista e etc.) ou um Deus que a gente mesmo crie para nós. A única exigência é que fosse ALGO acima de nós mesmos, que pudesse mandar em nossa vontade, em nosso lugar. E como todos os outros ‘pacientes’ (é necessário que nos vejamos como doentes sim, mesmo não indo para uma clínica ou hospital), ouvi tantas vezes isso, que acabei conseguindo seguir a trilha, a ideia, o subterfúgio mental, que mudaria a minha vida, de uma vez por todas. E por isso, hoje, ontem e nos últimos seis anos, eu não bebi e não tive vontade de beber.

Minha vergonha de admitir em público minha condição anterior, sem dúvida, é menor do que a vontade de inspirar novos ‘renascidos e renascidas’. Essa é a razão deste meu relato, e de tantos outros que eu já produzi sobre o assunto. O anonimato é essencial para o correto funcionamento das salas e da recuperação da maioria de nós, mas alguns, como eu, hão de levar a bandeira em céu aberto. Os dois trabalhos são imprescindíveis, cada um em seu lugar.

Só consegui parar de beber por causa do exemplo de outras pessoas que já tinham conseguido antes. E é para elas meu terceiro agradecimento – a meus ‘irmãos e irmãs de sala’.

Em segundo lugar, agradeço à minha esposa e aos parentes que sofreram comigo, e que me ajudaram neste processo de enorme provação, superação e crescimento. E claro, em primeiro lugar, agradeço a este ‘Deus’, este Poder Superior e seus ‘Anjos’, pelo trabalho magnífico que fizeram comigo.

Só por hoje, eu desejo a todos, mais 24 horas de serenidade, coragem e sabedoria, para sempre conseguirmos reconhecer a hora de aceitar o que não podemos mudar, e a hora de transformar uma situação que precisa de mudança imediata. Não deixe para amanhã, o que você já deveria ter feito ontem. Assim seja. PAUL SAMPAIO, 11:12 – 30/05/2019

Escrito por Paul Sampaio

PAUL SAMPAIO CHEDIAK ALVES é professor, locutor, apresentador de rádio e TV, web designer e diretor fundador da REDE SAMPAIO de Televisão e Sites.