Brasileiro Artur Avila é Nobel da Matemática


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Foi o maior prêmio já recebido por um pesquisador brasileiro – a Medalha Fields, considerada o “Nobel da Matemática”.

FERNANDO TADEU MORAES – DE FOLHA de SÃO PAULO

12/08/2014 16h54 – Atualizado às 22h18

O matemático brasileiro Artur Avila, 35, recebeu, nesta terça-feira (12) à noite, a Medalha Fields, popularmente conhecida como o “Nobel da matemática”. Ele é o primeiro ganhador da América latina.

A entrega do prêmio ocorreu na abertura do 27º Congresso Internacional de Matemáticos, em Seul, na Coreia do Sul.

  Mastrangelo Reino/Folhapress  
Artur Avila, em Paris, em foto que usou técnica de múltipla exposição
Artur Avila, em Paris, em foto que usou técnica de múltipla exposição

Nascido no Rio de Janeiro, Avila é pesquisador do Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada) e do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica, órgão de pesquisa do governo francês).

Considerado um dos matemáticos mais talentosos de sua geração, o brasileiro vinha sendo citado nos últimos anos como forte candidato ao prêmio.

“Já havia um burburinho sobre eu ganhar a medalha”, disse Avila à Folha. “Quase todo mundo que falava comigo acabava mencionando esse assunto. Já estava ficando uma coisa até um pouco chata.”

César Camacho, diretor-geral do Impa, dá a dimensão da conquista. “É sem dúvida o maior prêmio já recebido por um pesquisador brasileiro.”

Comparada ao Nobel, pela importância, a Medalha Fields distingue-se por ser entregue apenas de quatro em quatro anos para matemáticos de até 40 anos.

A cada edição, são entregues de duas a quatro medalhas. Os vencedores recebem ainda 15 mil dólares canadenses (cerca de R$ 31,3 mil) cada.

Neste ano, também receberam o prêmio o canadense-americano de origem indiana Manjul Bhargava, o austríaco Martin Hairer, e a iraniana Maryam Mirzakhani, a primeira mulher a receber a distinção.

“Artur não é só um jovem brilhante, mas também extremamente dedicado”, diz Welington de Melo, pesquisador do Impa, que orientou o doutorado de Avila.

A primeira linha de pesquisa de Avila foi na área de sistemas dinâmicos. Esse ramo da matemática busca prever a evolução no tempo de fenômenos naturais e humanos observados nos mais diversos ramos do conhecimento. Hoje, suas ferramentas são usadas para descrever a evolução de epidemias, para estudar como surgem espécies animais e mostrar a impossibilidade de previsões do tempo para mais do que alguns dias.

Dentre esses sistemas, uma classe importante são os sistemas dinâmicos caóticos. Na linguagem coloquial, caos está ligado a ideia de desordem completa, mas, na matemática, trata-se de um termo geral para processos com extrema sensibilidade às menores perturbações, em que pequenas alterações na situação inicial provocam modificações dramáticas na evolução do sistema.

O exemplo clássico é do bater de asas de uma borboleta no hemisfério Sul que multiplica-se e acumula-se, influenciando a ocorrência de uma tempestade no Japão.

Mais recentemente Avila tem trabalhado para construir uma teoria geral dos chamados operadores de Schrödinger quase-periódicos. Esses operadores originaram-se na física e são usados para descrever o comportamento quântico das partículas.

Avila trabalha com matemática pura. Isso quer dizer, que mesmo trabalhando em problemas com possíveis aplicações em outras áreas, esse não é o seu objetivo. “Meus interesses e motivações são puramente matemáticos. Mesmo quando trabalho com problemas originados na física, não me importo com possíveis aplicações.”


Nascido no Rio de Janeiro, Avila é pesquisador do Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada) e do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica, órgão de pesquisa do governo francês). Desde 2009, Avila desfruta de uma situação bastante particular entre seus pares, dividindo suas atividades de pesquisa entre Paris e o Rio de Janeiro.

“Tenho posições de pesquisador em tempo integral na França e no Brasil, sem compromisso com ensino. A qualquer momento eu posso ir de um país para o outro”, conta.

Considerado um dos matemáticos mais talentosos de sua geração, o brasileiro vinha sendo citado nos últimos anos como forte candidato ao prêmio.

Ele começou a frequentar o Impa aos 16 anos, ainda no ensino médio, após ter ganho a medalha de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática de 1995.

No ano seguinte, iniciou o mestrado no instituto. Concluiu o doutorado em matemática na mesma instituição aos 21 anos, na mesma semana em que pegou o diploma de graduação.

“A conquista do Artur mostra como é acertada a política do Impa de permitir que alunos de qualquer idade assistam às nossas aulas e tenham contato com os pesquisadores”, diz César Camacho, diretor-geral do Impa.

Artur não ignora o impacto que a conquista da Medalha Fields pode ter no Brasil.

“Para o público brasileiro esse prêmio vai servir para mostrar que existe pesquisa em matemática, que ela é uma área viva. Além disso, ele vai mostrar que não é só nos Estados Unidos ou na Europa que se faz pesquisa de ponta. Tira um pouco do complexo de vira-lata da comunidade científica brasileira.”

Ele diz que não possui propriamente uma rotina de trabalho. “Se eu estou envolvido em um projeto que está indo muito bem, trabalho o tempo todo; agora, se estou meio perdido, o que acontece na maior parte do tempo, deixo a coisa rolar até aparecer alguma coisa, enquanto isso me ocupo com as atividades do dia a dia.”

Questionado sobre o que o fazia escolher um problema para trabalhar, resumiu: “Beleza, mas isso eu não sei explicar”.

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