Dos Justiceiros

<para Leandro Sakamoto>

Percebo que sua linha de raciocínio buscou minimizar as crescentes ações justiceiras Brasil afora, posto que, a violência contra inocentes já é algo bastante combatido. Concordo. Mas acrescentaria, que essa “Onda  Sheherazade” agrega também, valores abandonados por nós, como a coragem e combatividade, que foram devidamente cutucados pela ‘onda’.. Me parece que o próprio tempo se encarregará de fazer os ajustes necessários … não vejo a sociedade brasileira se tornando uma Nação de Justiceiros … mas muitos outros casos acontecerão ainda. Principalmente nos Estados mais castigados pela desigualdade social, como vem mostrando os ares que sobem dos calabouços do Maranhão. Na verdade, aí está o foco. Quando conseguirmos uma política pública eficiente com os reeducandos, conseguiremos fazer a cabeça do crime organizado aqui fora, com muito mais rapidez. E quando eles não forem mais o exemplo de riqueza e sucesso, para os jovens pouco esclarecidos das classes miseráveis, a indústria da bandidagem será pouco a pouco desmantelada. E todos ficaremos mais seguros e felizes. Mas … os políticos que eu conheço têm muita preguiça pra começar isso agora. Preferem gastar bilhões em Segurança Pública da Idade Média, e deixar milhares morrerem na escuridão por hora.

Delicioso texto, mais uma vez, Sakamoto. Daqueles que nos dá vontade de escrever também. Que Deus te abençoe, querido.

Abraços. Paul Sampaio.

comentário para o texto abaixo:

Esma Justiça

Se algo causa impacto, é claro que será copiado.

E rapidamente, por conta da informação circulando em tempo real, seja via rádio e televisão, seja pela internet.

Manifestações ocupando ruas e avenidas levam a mais manifestações ocupando ruas e avenidas. O que é bom.

Mas imagens de homossexuais e transexuais apanhando na rua levam a mais homossexuais e transexuais apanhando na rua, de fogo em ônibus levam a mais fogo em ônibus e de gente sendo amarrada em postes levam a mais gente amarrada em postes. O que não é legal.

“Japonês, quer censurar a TV! Japonês quer censurar a internet!” Afe… (suspiro)

Não estou jogando a culpa no mensageiro ou dizendo que o mimetismo é a causa, mas temos certa parcela de responsabilidade. E não falo por conta da banalização da violência. É a sua transmissão acrítica, como se notícias fossem neutras, não houvesse contexto social e todos os receptores da informação compartilhassem dos mesmos valores.

Não tenho muita esperança que conseguiremos em 2014 fomentar um debate crítico sobre a nossa sociedade. Aliás, começo a torcer para que o ano simplesmente passe logo. Pois o Brasil está virando arquibancada – mas em momento de briga de torcida organizada.

Então, você amigo internauta, amigo jornalista, não transmita ou repasse aberrações sem questionar, pelo amor de Buda. Lembre-se que o seu apoio a um ato idiota – seja objetivo ou por omissão – não muda sozinho a opinião das pessoas, mas unido a outros apoios ajuda a formar uma percepção sobre o assunto.

Em suma, toda pessoa que ajuda a inflar monstros ao longo dos anos ou se omitiu diante disso tem uma parcela de culpa no show de horrores e de vergonha alheia.

Não somos nós que vamos a público cometer agressões. Da mesma forma que não é a mão de pastores ou deputados que seguram a faca, o revólver ou a lâmpada fluorescente que atacam gays e lésbicas. Mas somos nós que, muitas vezes, na busca por audiência ou para encaixar um fato em nossa visão de mundo, tornamos a agressão banal, quase uma necessidade para restabelecer a ordem das coisas.

Então, como diria a minha avó, meça suas palavras.

Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. Cobriu conflitos armados e o desrespeito aos direitos humanos em Timor Leste, Angola e no Paquistão. Professor de Jornalismo na PUC-SP, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.  FACEBOOK

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