Linguagem de Vídeo

Lembro de mim, assistindo meus primeiros filmes de vídeo cassete, e pausando a fita em vários trechos, estudando o posicionamento de câmeras, de coisas que eu já tinha assistido antes e gostado muito. Pensava eu: se eu mapear tudo direitinho, e adaptar tudo no  meu roteiro, é só escrever as cenas da maneira como eles fazem (Spielberg, George Lucas, Coppola, Ridley Scott … eram os que gostava mais, no início da minha formação), e vai ficar um filme perfeito.

Contudo, isso me deixava louco. Era impossível sair montando um filme assim, como um quebra cabeças, sem matar toda a emoção que existiria nas próprias cenas. Só que eu não sabia disso ainda. Nem sabia que o estilo em captação de vídeo, é como fazer música. O compositor vai pra onde sua veia artística quer. E nunca pra onde ele pensava que iria antes de começar a compor.

Fazer vídeo, pra cinema, TV ou só pra família, é tudo a mesma coisa. Cada um vê de um jeito. Presta atenção mais em umas coisas do que em outras, e sai dando destaque pra isso. É o olho do cinegrafista que cria a cena. E o estilo dele, nasce da prática no ofício. E só aí. Porque só a pratica ensina a gente onde a imagem vai estar daqui cinco segundos ou mais. Só ela vai te ensinar a estar com a câmera lá, bem posicionada, quando a imagem acontecer. Afinal, é preciso bailar pra todos os lados, com movimentos de corpo bem suaves, sempre acompanhando o melhor ângulo das pessoas e as coisas ao redor. É preciso ter uma intuição bem aguçada e experimentada para absorver tudo isso, e com algum tempo de antecedência ainda.

Se um dia eu vir a fazer cinema, eu jamais escreverei o posicionamento de câmeras para as cenas fechadas no diálogo, por exemplo, antes de chegar ao SET de filmagem. Quero ver o clima que tudo no lugar, me propõe. A luz natural e a adaptação da luz artificial. O estado de espírito e condições físicas dos atores, no dia da filmagem … enfim, são as câmeras que precisam se adaptar ao ambiente, e não o inverso. Foi assim em tudo o que eu gravei da ‘vida real’, em forma de documentário.

Comecei a fazer minhas primeiras matérias logo em TV aberta, em 1997, em um programa que tive no SBT do centro-oeste paulista. A linguagem não evoluiu quase nada por influência do meu cinegrafista, Gilberto Rosa Souza , sumidade, devo dizer, que tinha formação de telejornalismo da Globo, e por isso, foi só jornalismo mesmo.

Mas quando fiz a cobertura da campanha política, esse ano, eu pude experimentar várias coisas. Não me arrependo de nada do que eu fiz. Na verdade sempre enxergo o erro como parte do crescimento, do apredizado do que é fazer bem, fazer melhor. Fui ousado em vários momentos e acho que até lá, conseguí ser pertinente.

Aprendí com o Gilberto a trazer imagens pra edição. Não poderia ter tido professor melhor. Quando chego pra editar meu próprio material, sempre fico contente, porque filmei sempre a mais do que precisava. Tem tudo o que precisa. Gerais, detalhes, pans ( imagens panorâmicas, onde a gente move a câmera pros lados, pra cima e pra baixo, pra mostrar o que há ao redor), as imagens significativas, os achados … é, os achados … e as belíssimas. O movimento da câmera trazendo para nós uma sensação de prazer, e poder até, através da imagem.

O principal de tudo é a emoção. Áudio e vídeo sempre caminhando super juntos. Frame a frame. Mesmo quando não tem acesso a eles. Estou editando no notebook, com um programa me permite apenas a divisão por segundos, e não frames, que são a divisão do segundo em 23,97 partes. Mesmo assim, há como fazer. O ouvido e os olhos são os melhores termómetros pra isso. E quando não nos emocionamos, é porque algo está errado. Volta e faz de novo.

Com o tempo, essa arte vai se desenvolvendo, e as coisas parecem cair como uma luva, meio sem explicação … pensamos até, que é coincidência … mas não é … é a experiência. Sem querer já conseguimos ver  o que vai funcionar bem, muito antes de acontecer. E nossa intuição só nos leva até lá.

Graças a Deus, hoje eu consigo escrever sem pensar se é um diretor de cinema, produtor de TV ou ator que está me lendo. Nesse mundo onde a subjetividade manda, o que mais vai ter, é gente rindo da maneira como eu coloquei minhas opiniões aqui. Mas se pensasse neles na hora de escrever, estaria escrevendo pra eles, e perderia o principal – como eu me sinto quando faço imagens e edito vídeos.

Abaixo, um vídeo que eu fiz para a campanha de 2012, onde eu acho que conseguí um resultado, digno de algum orgulho. Lembrando sempre, as condições de trabalho dessa vez. Nada de equipamento beta, digital do bom … é câmera de bolso e o movie maker do windows. E o desafio: apesar das condições impossíveis para uma imagem profissional … sem condições de manter a estabilidade com uma câmera que pesa algumas gramas … sem poder dar zoom ou trabalhar com o foco e desfoque … e mesmo assim, fazer uma imagem e uma edição, que cause emoção em quem está assistindo.

Enfim, nasce o genérico dos vídeos.

Devido a essa nova acessibilidade aos eletrônicos, e à qualidade mínima de imagem, já disponível até nos equipamentos mais baratos, tenho certeza que teremos em evidência, o trabalho de muitos mais artistas que estavam só precisando disso, para mostrarem seu trabalho.

Por isso, eu digo: ooooiiii … olha eu aqui ! rrsrsrsrssrss …….  Paul Sampaio

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