A imoralidade não tira férias

A ilusão de que a corrupção poderia acabar no meio político, durou em mim, apenas até a adolescência. Lembro de mim, rindo dos políticos no horário eleitoral gratuito,  quando eles falavam de moralidade, muito antes de entrar na faculdade. Quando ainda tinha 17 anos, e já era vendedor de computadores, fui induzido pelo dono da empresa em que eu trabalhava, a fechar com um comprador do CEPAM, na Fundação Prefeito Faria Lima, uma ‘bola’ ( propina paga em negociatas ) maior do que a dos concorrentes, em uma licitação. Achei um absurdo. Não era o que eu tinha aprendido com meus pais. Fiquei ofendido. Mas … percebí que era assim que funcionava o mundo logo quando eu cheguei. Como gostei muito da Cidade Universitária, onde ficava o CEPAM, prestei o vestibular, e fui estudar filosofia lá, ao invés de me tornar aquele tipo de gente pelo resto da minha vida. E foi na FFLCH (Faculdades de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP, que eu fui entender através dos meus professores e dos livros, que essa prática, esse hábito, já existia na civilização humana desde seu início. A corrupção na vida pública só muda em intensidade e visibilidade, mas não acaba nunca.

Esse sentimento de repugnância e ódio, que tal prática causa a nós, cidadãos comuns e honestos, não é muito de frequentar os círculos das pessoas que estão na vida pública. A política, é um território de negociações constantes, de confrontamentos ideológicos ( isso já não existe mais no Brasil há pelo menos uma década … pelo menos não entre os partidos que repartem o poder das instituições públicas hoje em dia ). Por isso, é inevitável que exista uma espécie de ‘segunda moral’ dentro da política. Eu explico melhor. Um político, ou um partido inteiro, é capaz de dar uma pasta, uma repartição, instituição, secretaria ou  ministério, e fazer vistas super grossas para o que acontece lá dentro, em troca de algo que seja de seu interesse. E eles estão, é claro, sempre interessados em alguma coisa que envolva bastante dinheiro público. E fica subentendido entre eles o seguinte: só não faça a besteira de fazer besteira, e deixar rastros. E se você for pego, você já sabe – eu não te conheço, eu não sabia de nada …

Examinemos o caso do Demóstenes Torres. Foi desmascarado em rede nacional algumas vezes, o Brasil inteiro sabe o quanto ele desonrou o país sendo um senador mafioso, menos ele. Ele era um dos políticos que mais batia no PT no episódio do ‘mensalão’. Parecia ser um homem, digo, um Senador da República dos mais sérios e incomodados com a corrupção no Congresso Nacional. Bateu tanto no partido que era a situação na Presidência, e que comanda até agora a Polícia Federal, que acabou ganhando um grampo vitalício da PF em seus telefones. E o que descobrimos ? Que ele estava, juntamente com um grande bando de outros políticos corruptos, a serviço de um contraventor dos grandes, uma pessoa especializada em usar homens públicos para aumentar sua fortuna pessoal. Não precisaria nem dizer o nome, mas só por uma questão de ordem: Carlos Cachoeira. E pra mim pelo menos, não é Carlinhos coisa nenhuma. Não é meu amigo. É só um presidiário inimigo do povo brasileiro.

Demóstenes foi cassado e em seu lugar entra o suplente  Wilder Morais, outro político do grande grupo que existe em Goiás, amiguinho do Cachoeira também. Quer dizer: mais uma CPI garantida pra depois das férias. É, férias. Afinal, ninguém é de ferro. Eles já devem estar bem cansados de se vigiarem tanto nas CPIs. São tantas, que qualquer estudante, quando perguntado sobre a função dos congressistas, vai dizer que o trabalho deles é fazer CPI. E tá chegando a vez do ‘mensalão’. Essa, se fosse feita a sério, exigiria uma eleição extraordinária para repovoar o Congresso. O PT que eu admirava e que até ajudei, militando no movimento estudantil, hoje, não se difere em nada do DEM, PSDB, PMDB … já entrou pro mundo da ‘segunda moral’ faz tempo. Em âmbito nacional, e em vários municípios importantes do Brasil.

Sendo assim, o que fazer então ? Parar de votar ? Fiz isso por 15 anos, e só me sentí pior.

Ou se conformar e ficar torcendo para que eles consiguam se vigiar bem o suficiente, e se destruam durante esse processo ? Queira ou não, um ou outro acaba sendo pego. E acredito que , com o melhorar da outra vigilância, a midiática, possamos até começar a encarcerar esses salafrários, um a um. Contudo, a prática nunca acabará. Um dos meus professores, José Arthur Giannotti ( entrevista disponibilizada aqui, no final do artigo ) , que com certeza, sabe ensinar essa aula bem melhor que eu, explica com propriedade, esse momento que vivemos, e reafirma que a única alternativa para a diminuição da corrupção, é justamente esse embate entre os políticos, na tentativa de descobrir as tramóias deles mesmos. Como eterno estudante de filosofia, eu entendo e até repasso o conceito, mas como brasileiro acho pouco.

É muito duro ouvir em um mesmo bloco do jornal, que não tem carro-pipa chegando em certos municípios brasileiros em total seca, para matar a sede de famílias inteiras, mas que uma meia dúzia de bandidos, queimam o dinheiro da água com suas luxúrias. E o senador bandido, chamado Demóstenes Torres, ao invés de aparecer no mesmo jornal em que foi desmascarado, pedindo desculpas à população brasileira, por ter traído nossa confiança, o canalha, aparece pisando no Congresso Nacional de novo, e discursando sobre sua inocência. Quando na verdade, deveria estar dividindo cela com seu amigão, Cachoeira. Contudo, nesse meio tão ‘delicado’, eles têm privilégios que cidadãos como nós, não têm nunca. A única pena dele é a perda do mandato, por enquanto.

Como Demóstenes, o grego, nosso Demóstenes também se vendeu. O primeiro, pelo menos, tinha honra, ou sei lá … acho que tinha mãe decente talvez, e por isso, vergonha. Quando se viu encurralado, se matou. Nosso Demóstenes não passa de um moleque que se acha no paraíso da impunidade. Jamais seria homem pra isso.

Como seria bom se a corrupção tirasse férias junto com eles. Contudo, todos nós sabemos que papai Noel é só uma criação da imaginação humana, e que as canetas deles estão cheias de tinta para assinar o dinheiro que o povo brasileiro confia a eles. Os homens e mulheres do Congresso entram em férias, mas … não sejamos crianças … as canetas não.

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