A dispersão dos zumbis

” Todos podemos controlar a dor, exceto aquele que a sente.”

William Shakespeare


            Sob a concordância do Sr. Coordenador de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania, Luis Alberto Chaves de Oliveira, as ações contra os dependentes químicos, viciados em crack na cidade de São Paulo, continuam.
            Diz ele que “A falta da droga e a dificuldade de fixação, vão fazer com que as pessoas busquem o tratamento. Como é que você consegue levar o usuário a se tratar? Não é pela razão, é pelo sofrimento. Quem busca ajuda não suporta mais aquela situação. Dor e o sofrimento fazem a pessoa pedir ajuda”. Sendo assim, antes da tentativa de convencimento conjunto, por parte de equipes médicas e assistentes sociais, e da polícia também, claro, ou até do tratamento forçado; mais uma vez, o Estado escolheu o caminho mais fácil – aumentar o sofrimento desses seres humanos, em prol da fraca vontade política. Afinal, tirando os viciados da rua, a sociedade pensará que a administração pública está fazendo sua parte, e por isso, seus líderes, merecem ser reeleitos.
            Todavia, é óbvio que eles sabem que é uma medida absolutamente ineficaz. Que esses dependentes irão migrar para outras áreas da cidade, assim como os traficantes dessa droga. Sabem também que nenhum desses homens, mulheres, adolescentes e até crianças, vai procurar ajuda médica, só porque a PM está os expulsando, à força das ruas. O sofrimento deles vai continuar, assim como os assaltos, latrocínios e demais crimes, causados pela necessidade da droga. É uma típica medida maquiadora, sem nenhum ganho social para a população da cidade.
            O Estado brasileiro há vinte anos, permiti a proliferação do crack por todos os cantos do país, e São Paulo, sendo a maior metrópole da América Latina, reflete o pior dos quadros possíveis. E como a situação do momento está pra lá de insustentável, os governos estaduais e prefeituras continuam conversando com a Presidência da República e o Congresso Nacional, para que alguma coisa seja feita. E finalmente, as ações começaram.
            Os comandantes da nação, depois de deixarem o crack dominar as ruas, agora vão tirar delas, todos os cidadãos brasileiros que se tornaram dependentes dele. Cidadãos que foram pra lá porque deixaram suas famílias pelo crack, e se tornaram marginais, moradores de rua, mendigos, traficantes, ladrões, assassinos e tantas outras deformidades humanas, que por décadas, já deveria ter tido uma ação preventiva, e não teve. E agora,  esse senhor Luís Alberto ainda recebe o título e o cargo de Defensor da Cidadania e Coordenador de Políticas sobre Drogas.
            E o pior é que a gente sabe que ele é só um porta-voz do Governador do Estado, o médico Geraldo Alckmin. Sim médico. Que talvez não tenha lido os relatórios de seus colegas, disponíveis em todos os meios de comunicação. Relatórios que discordam totalmente da atitude do Governo. Será que ele esqueceu que essas pessoas estão doentes, e que precisam de tratamento e não de repressão policial pura e simplesmente?
           Lembro de ter escutado da Presidente Dilma que a União está disponibilizando milhões, bilhões para o combate ao crack e tratamento de seus dependentes, e a primeira grande medida que vemos, na maior cidade brasileira, é a PM descendo o cacetete, e só !
           Isso tudo me lembra muito o pensamento que reinava no Brasil durante a Ditadura Militar, que fazia as pessoas concordarem que a melhor solução para aqueles que incomodavam a ordem pública, era colocá-los no paredão de fuzilamento. Bandido ? Ahhh … tem que ir pro paredão, sem julgamento ! Muitos de nós pensavam assim … e ainda pensam.
          Se nosso Governador tivesse um filho perdido nas entranhas da cracolândia, será que ele escolheria essa política ? Adoraria assistir “Traffic” de Soderbergh, com ele, e ficar comentando o filme inteiro ao ouvido dele. Pode parecer piegas o que digo, pode até lembrar aqueles que queriam o Lula no SUS, e não no melhor hospital, contudo, como pode um político pensar o povo que ele governa, senão como parte de sua família ? Eu explico: está tudo lá na obra “O Príncipe” de Maquiavel – o governante não precisa sempre fazer o melhor pra seu povo. Ele precisa é da simpatia dele, para continuar no poder. Enfim, os fins justificam os meios. A nobresa sempre estará protegida em seus castelos, palácios … dos bandeirantes e do Governador, mas não daqueles paulistanos da cracolândia.
          Esqueçamos então deles e de seus lares destruídos, e lembremos de uma família protegida, com lindos jardins em seu Palácio, para ver ao acordar. Com acervo de maravilhosas obras de arte, os melhores trajes, e a melhor alimentação, transporte e assistência médica que nós contribuintes podemos dar a um governante e agregados.
          É bem mais legal pensar nisso do que naqueles pobres coitados. Uma realidade bem mais bonita de imaginar. Na verdade, a única realidade que temos hoje – estamos simplesmente colocando a polícia atrás de um bando de doentes e incapazes. Pessoas tão brasileiras como nós, que usamos esse jornal para ler.
( Paul Sampaio é filósofo e colaborador do JC – http://www.paulsampaio.com )
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